A vantagem de ensinar às crianças reside no fato de que a elas se pode corrigir e até repreender, segundo seja o caso, com absoluta despreocupação quanto às suas reações derivadas do amor-próprio, tão pronunciado no ser humano. As pessoas adultas têm, além disso, a mente quase sempre ocupada com mil assuntos distintos e, por outro lado, não frequentam as aulas no horário da manhã ou da tarde, como as crianças, mas à noite, sendo então de se prever que tenham acumulado todas as fadigas do dia, o que atenta, queira-se ou não, contra o melhor propósito ou disposição de escutar, estudar e aprender. Nessas horas, buscam-se entretenimentos alegres ou de outro gênero na esperança de descongestionar a mente com motivos que manifestamente distraiam o pensamento.
Daí que o adulto, o ser que já ultrapassou a época dos sonhos quiméricos, quando mostra ardente vontade de superação e em verdade quer desfrutar mais prontamente as prerrogativas que a ampliação do saber confere, se deva dispor, com todas as forças de sua alma, para levar em frente com digno entusiasmo e empenho a tarefa de cultivar suas faculdades. Convém, por conseguinte, se não existem sinais que a evidenciem, começar por criar a vocação para o estudo, para a ilustração e aperfeiçoamento. Essa vocação pode ser com certeza criada, se, auscultando o sentir, percebe que surgem aspirações de melhoramento paralelamente ao reconhecimento da própria mediocridade, a qual se há de querer transcender, distanciando-a cada dia mais das condições superiores cuja conquista se tenta.
Deve-se entender por vocação o pensamento que preside e anima o esforço em tenaz correspondência com a vontade, |
que em nenhuma hipótese deve decair, uma vez definido e preparado o caminho a seguir. Ao mesmo tempo, deverá formar-se um juízo bem acabado sobre as preferências internas a respeito do saber, ou seja, se tão-somente se busca este saber para adquirir uma certa ilustração, se é cultivado nada mais que para saber, ou se é erigido como uma necessidade permanente do espírito e como finalidade primordial da existência. Em tal caso, o ato de estudar e aprender transforma-se fundamentalmente: reveste-se agora de todas as características da fecundidade, no natural exercício da função criadora do pensamento.
No primeiro caso, o ser humano somente busca melhorar suas perspectivas, fazendo mais cômodo o lugar que ocupa na vida de relacionamento. Sabe-se como a ignorância, que é ausência de conhecimentos e falta de cultura, limita e dificulta a maneira de viver e os meios de atuar, já que, não sabendo por esta causa como ser mais, o inapto haverá de se conformar com aquilo que licitamente e por justiça lhe é possível ter. Porém, melhoradas suas condições pela instrução e pelo esforço na sua aplicação, é lógico que experimente o prazer inefável de seu adiantamento espiritual e material. Entenda-se espiritual, como bem dissemos primeiramente, porque é coisa muito certa que toda claridade que se consiga fazer penetrar na mente sempre tende a repercutir no sentimento, e este, por reflexo, agita o espírito, atraindo, em consequência, a atenção própria para o que surge acima do material, enobrecendo a vida.
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